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30 janeiro 2013

E depois só resta a saudade...

Hoje é 30 de Janeiro, Dia da Saudade, e bem... Talvez não fosse o momento ideal pra eu vir falar sobre isso aqui.


Saudade vem do latim Solitude, que quer dizer Solidão. Termo único, não traduzível para outros idiomas e que expressa muitos sentimentos diferentes. Saudade de reviver os tempos de criança, saudade de um amigo que mora longe, saudade da pessoa amada... Num geral, tudo quer dizer somente: Sentir Falta.

E nessa semana onde todo o Brasil anda tão abalado com essa tragédia tão triste, achei que antes de falar de justiça, antes de falar de fatos e de possíveis culpados, a ideia maior é falar da dor. A dor da saudade...

Porque agora, não vem ao caso fatos e explicações, não vem ao caso julgar ou culpar, não vem ao caso estabelecer razões e criar motivos para tudo. Não sem antes acolher a dor pela qual passa os familiares, os sobreviventes, aqueles que viverão com a terrível lembrança na mente para o resto de suas vidas. E desse momento eles não terão saudades.

Como diz o poema do Carpinejar, quem não morreu em Santa Maria naquele 27 de Janeiro? Quem não sentiu o desespero e a angústia dos familiares, dos bombeiros que tentavam salvar mais uma vida ou precisavam lidar com mais uma morte? Antes de lidar com os fatos, é preciso lidar com a dor. E o que se fazer pra consertar? O ser humano jamais irá se acostumar com a dor, com o sofrimento, com a perda. O ser humano não tem alicerce, não tem entendimento para conceber a ideia da dor. Então, como seguir em frente? Como olhar nos olhos de uma mãe recém viúva e que perdeu os dois únicos filhos? Não há explicação para isso, e não importa o quanto a imprensa tente fazer manchete em cima da desgraça alheia, pois no fim, a única coisa que resta é a dor da saudade.

Saudade ao ver as roupas, os livros, as fotos. Saudade ao perceber os últimos traços pela casa, o telefonema perdido, a última troca de palavras. Saudade por saber que não há outra chance. 

Tem muita gente fazendo piada e comentários desnecessários pela internet. Talvez seja apenas uma forma estranha de lidar com isso: a dor. Eu penso que ainda iremos demorar a seguir em frente, a fazer com que a ferida cicatrize aos poucos, a conviver com os sentimentos de tristeza. E acho que apesar de tudo, o Brasil tem se mostrado um país que acolhe e que se sensibiliza com a tragédia alheia e que mesmo com todas as dificuldades, consegue superar e fazer esse povo sofrido ser mais feliz.

Sendo assim, oremos por cada família, oremos pelos que se foram, oremos por quem ainda precisa de cuidados, oremos pelo que ainda pode acontecer e principalmente, oremos por cada um de nós, para que possamos cada vez mais, ter a sabedoria e a força necessária para aprender a lidar com a dor. Porque afinal, no sofrimento e nas impossibilidades, é onde Deus se faz mais presente.

Antes vos fortaleceria com a minha boca, e a consolação dos meus lábios abrandaria a vossa dor.
Jó 16:5


A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, doem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Doem essas saudades todas. 

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros

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