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08 maio 2013

Elite da Tropa - O livro que inspirou o filme

Eu não sou o tipo de pessoa que costuma ler muitos livros sobre problemas sociais, biografias ou qualquer coisa que me apresente uma realidade muito macabra. Também não sou o tipo de pessoa que simplesmente fecha os olhos para certas situações. Não, eu gosto de escutar opiniões, debater, inserir meu ponto de vista. E foi em um momento como esse, e depois de ver o segundo filme do blockbuster brasileiro Tropa de Elite, que me senti instigada a comprar os livros que inspiraram o surgimento do Capitão Nascimento e companhia. Já mostrei os livros pra vocês aqui.

À princípio, fiquei empolgada com uma leitura que revelasse pormenores do filme, que me mostrasse como realmente trabalhava o BOPE e como funcionava essa coisa quase inacreditável da equipe ser incorruptível. Mas ao passar as primeiras páginas do livro assinado pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares - co-autor de Cabeça de Porco - e pelos ex-membros do BOPE Rodrigo Pimentel e André Batista, eu comecei a perceber que a realidade estava muito além do que o filme conseguiu exibir na telona.

Não me entenda mal, de nenhum modo estou acusando o filme de ser mentiroso, ou fugir da realidade. Mas Elite da Tropa apresenta uma crueza e uma violência em nível muito mais elevado. Um livro que serve para chocar, mas também para refletir. E muito.

Na primeira parte do livro, concentram-se relatos impressionantes sobre o cotidiano dos policiais de elite. Na segunda, um dos nossos personagens seguirá numa trama envolvendo autoridades de segurança, traficantes, políticos e policiais - uma rede que tece alianças improváveis entre os vários atores deste cenário.

Depois de cavalgar 100 quilômetros, sem arreio e sem descanso, mortos de fome e sede, eles têm licença para um descanso brevíssimo até que alguém anuncie que a comida está servida - sobre a lona, onde o grupo exaurido vai se debruçar para comer tudo o que conseguir, com as mãos, em dois minutos. Esta é apenas uma das etapas de treinamento da tropa de elite da polícia. Eles obedecem a regras estritas, as leis da guerrilha urbana. Na dúvida, mate. Não corra, não morra. Máquinas de guerra, eles foram treinados para ser a melhor tropa urbana do mundo, um grupo pequeno e fechado de homens atuando com força máxima e devastadora.

Antes de mais nada é preciso ter um estômago bem forte para suportar certas partes do livro. Esqueçam que o filme retratava heróis e trazia um Capitão disposto a dar a vida pela pátria em busca dos cruéis e incompreensíveis bandidos. Elite da Tropa é muito mais intenso e crítico do que isso, mostrando não somente a realidade da ação nas favelas do Rio de Janeiro, como também a vida insensata e caótica dos policiais, principalmente do batalhão de elite.


Vemos situações confusas, nos deparamos com casos que muitas vezes pode parecer absurdos aos olhos da sociedade. Casos que facilmente ocorrem na vida real e não são apenas detalhes bem elaborados de um livro. Os policiais são o ponto chave dessa história e a vida corrida e atribulada deles é apenas uma questão de ponto de vista. O mais interessante em acompanhar a história desses homens, é perceber muitas vezes, que a história deles não significavam nada em prol de um bem maior. Eles estão lá fazendo o trabalho sujo e sequer alguém irá saber seus nomes ou pelo quê eles estavam lutando.

"De repente me apontam o fuzil lá de cima e eu só sinto aquele coice na barriga. Ficou tudo preto. Acordei aqui, depois da cirurgia. Foi tiro amigo, meu irmão. Tiro amigo. Agora, eu te pergunto: por quê? Está certo que sou negro e que estava armado e sem uniforme, mas, porra, pra quê atirar antes de identificar o camarada?" 
Pág 19


E quando se trata de trabalho sujo o BOPE é o pelotão que praticamente tem todo o sangue nas mãos. As histórias entrelaçadas e carregadas de tortura psicológica dos personagens nos fazem entrar numa redoma de conflitos éticos, pois afinal até onde somos capazes de entender a linha tênue que separa a responsabilidade da crueldade? A vida e a morte ficam enterradas nas mãos desses homens que muitas vezes não sabem ao certo quais sãos os motivos para isso acontecer. E acompanhar esse enredo cheio de altos e baixos chega a ser angustiante.

"Por falar em alma, chegou o dia das condecorações. Muitos meses já haviam passado, mas a ferida continuava aberta. Délio não se conformava com a morte da menina e o espectro do marginal desfigurado ainda assombrava alguns de nós. Perdemos sono e sossego, por um longo tempo. O ritual de condecoração faria com que revivêssemos a experiência, porque os registros da ocorrência, com todos os detalhes, seriam lidos na cerimônia. Revolver esse passado era a última coisa que poderíamos desejar. Se nos quisessem premiar, que nos deixassem em paz, nos esquecessem e nos permitissem esquecer. A memória, às vezes, parece um cofre em que a gente é enterrado vivo.Não houve jeito. Prenderam no nosso peito aquele fato, envolto numa fitinha azul." 
Págs 31-32


A primeira parte de Elite da Tropa é um conglomerado de situações que cercam a vida dos policiais. Narrado em primeira pessoa por um policial, que vive as inquietações de ser um negro e estudante da PUC, podemos observar o quão absurda e impressionante é a prática dessa realidade. Pois onde se entende que a teoria é muito bonita, que a lei rege e que a ética e a moral se sobrepõem, a crueza da realidade se mostra um cenário completamente paralelo, trazendo homens que estão dispostos a atirar sem piscar duas vezes e a engolir a frieza de assassinatos e violência como se fosse um pequeno detalhe corriqueiro de seus dias.

"Comentei com o sargento Aguinaldo, a meu lado: 'A velhinha salvou nossa vida. Era uma emboscada.' 'Que velhinha?', ele perguntou. 'Como, que velhinha? A velhinha, ora bolas. Aquela senhora que passou por nós com a bolsa e sussurrou a mensagem pra mim'. 'Tenente', ele disse, 'tenente, não teve senhora nenhuma,não teve velhinha nenhuma. Ninguém passou por aqui desde que nós chegamos. O senhor acha que uma velhinha ia passear entre dois fogos, assim, sem mais nem menos? E que, além de tudo, eu não ia ver?' Fiquei gelado. Aliás, até hoje fico arrepiado quando conto essa história." 
Pág 44


O livro traz casos absurdos e intrigantes, como uma suposta emboscada para arquitetar a morte do ex-governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, e descreve cenas completamente cruéis de métodos selvagens de tortura. O BOPE é visto como um meio de tornar homens em máquinas de guerra, cães sem emoções que estejam dispostos a atacar sem ter medo do que irá acontecer. No entanto, a narrativa também deixa claro as estratégias, o plano de fundo que rege a corporação, e as artimanhas políticas por trás de cada evento. É bem interessante de se acompanhar, há um quê de tensão e suspense e o leitor se sente aguçado em engolir cada capítulo. Sim, engolir, porque a leitura de Elite da Tropa não é algo que requer uma mastigação e uma apreciação do paladar, usando uma linguagem metafórica. Em contrapartida, a digestão da leitura não é nada simples.


Quanto a segunda parte do livro, a narrativa muda de foco e traz uma discussão política mais acirrada, uma trama envolvendo a cúpula da segurança no Rio de Janeiro e a ladainha de bate-e-volta de responsabilidade por atos ilegais. Episódios envolvendo os traficantes e as ligações desses com a polícia também são evidenciadas e essa parte do texto deixa bem nítida uma critica social brusca, tentando levar ao leitor uma nova visão sobre o sistema de segurança pública, e exigindo um posicionamento, uma opinião, e querendo ou não, a questão de sempre: O que fazer a respeito?

"...Às vezes, sinto até raiva disso tudo. De boas intenções o inferno tá cheio. Tudo isso é muito distante da realidade, Licinha. A realidade do Brasil é outra, minha amiga. Quer saber? A realidade é foda. Foda. É tiro, sangue, bosta, massa encefálica espalhada, misturada com feto que desce o esgoto a céu aberto. Estado, política, polícia, justiça, é tudo ficção, Licinha. História da carochinha. Chamar os presos de criminosos é correto, claro; mas também não é. Eu aceito chamá-los assim, se a gente combinar que também vai chamar o Estado de criminoso. E a justiça, a polícia, a política, toda essa bosta. Se não valer pra todos, eu não concordo, porque os bandidos de Bangu I não são piores que os bandidos que os prenderam. E a sociedade em que eles cresceram fez deles o que são. Essa bosta de sociedade em que a gente vive, Licinha.- Então não tem livre-arbítrio? Ninguém escolhe nada? É tudo culpa da sociedade? Se fosse assim, todo miserável seria criminoso."
Pág 290


O livro, apesar de sua temática forte, foi uma grata surpresa pra mim. Confesso não ter uma base teórica relevante sobre esse tipo de leitura, nem ser uma das mais fanáticas sobre discussões sociais, mas através do texto de Elite da Tropa, muitas coisas clarearam na minha mente sobre como o caos no Brasil se estabelece. Até onde cada uma das cenas retratadas no livro são verídicas ou não, não vem bem ao caso, uma vez que tais cenas são facilmente recriadas na nossa realidade atual.

Por fim, o livro tem muitas coisas diferentes do filme, tem um lado mais vívido e cruel e se mostra mais como um documentário do que propriamente como um enredo de ação. E me sentindo muito curiosa sobre o tema após a leitura, achei uns videos bem interessantes na internet que mostram outros aspectos dessa guerra urbana que já é tão rotineira na vida das grandes cidades. Um desses é o documentário Notícias de uma Guerra Particular, que traz que depoimentos de traficantes e policiais (foco para o ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel e co-autor de Elite da Tropa) e como ocorre essa fusão de tráfico, luta pela sobrevivência e combate à violência.

Bem, livro recomendadíssimo. Quem se interessar também, já foi feito Elite da Tropa 2 e garanto que a leitura será bem útil pra vocês adquirirem uma visão de mundo mais sólida e crítica.


Um comentário:

  1. Uai! Que resenha! Me deu vontade de ler o livro! Não costumo fazer isso. Ver e depois ler, mas acho auevale a pena! Bjs

    Venha visitar meu blog sobre livros e series: www.culturaviciante.blogspot.com

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