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12 janeiro 2014

7 Dias Longe da Cidade Grande - O Pé de Oiticica

Imagem: Reprodução


Domingo de manhã as estradas estão lotadas. O vai e vem dos automóveis em direção à feira, a busca pela melhor verdura, pela fruta mais doce, as senhorinhas saindo da missa das sete. O dia é animado como festa, as pessoas falam alto, a euforia se espalha. Mas então, você está disposta a passear. O sol ajuda, está claro e brilhante, embora ainda não tão quente. Assim começa a jornada.

Os prados são verdejantes, mesmo com a estiagem, é fácil avistar os cumes ao longe, repleto de coqueiros, sombreiros, o gado pastando. Os pássaros fazem a ronda, um grupo de andorinhas cantam seu melodioso assobio junto com o farfalhar das folhas. O galo de campina, o azulão e o pardal sobrevoam o quintal, enquanto as galinhas bagunceiras já estão fazendo seu barulho matinal. Domingo é festa em todo canto, da igreja ao galinheiro.

As visitas começam, um senhorzinho vem dizer bom dia, pedir um café bem quente, uma meia dúzia de palavras trocadas. A velhinha da beira da estrada está carregando seus temperos; do outro lado, tem gente já tomando o chá de hortelã recém saído do fogo, uma bolachinha doce pra beliscar. De frente, a paisagem é estonteante, não dá pra imaginar como é a vida sem ver aqueles largos campos, aqueles montes, aquele verde se estendendo até onde não dá mais. A obra de Deus ninguém explica. Mas é ali do outro lado, de frente a uma dessas casinhas de teto baixo, que está ele, o símbolo de resplendor do sertão: o pé de oiticica. 

Ele é um troço gigante, galho caindo por todo lado, não dá pra ver fruto, só a folhagem verde, sem cheiro, sem graça. O mistério mora no tronco seco, cinza apagado, parece granito. E as folhas... São como flocos de neve, se desmancham no primeiro toque. Verdes mais que elas não há, embora secas mais que elas também nenhuma seja. E aquilo te deixa curiosa, porque as árvores da cidade grande são grandes e sem graça, não cheiram, não produzem som. Talvez até a fotossíntese delas seja artificial. E logo você se pega pensando: e um pé de oiticica no meu quintal? Sim, ali naquela varanda do apartamento, fazendo uma sombra na sala de estar e deixando verde um pedaço da casa. Só pra que você possa brincar com a folhas, arrancando penosamente de uma em uma, para vê-las depois esfarelar em suas mãos.

Aqui no sítio o pé de oiticica é quase como pipoca no cinema: ele não é razão principal da sua ida lá, mas o passeio perde a graça sem ele. O pé de oiticica é quase um rei.

Que seja, você separa uma muda. Levará o pé de oiticica pra plantar num desses vasinhos pequenos de argila. Vai ficar lá no canto da sua sala, enorme, sem jeito, sem posição; só pra que você possa olhar pra ele um dia e lembrar do sertão.

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