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24 maio 2016

Um Gostinho e Um Textinho de Infância

Hoje me bateu uma daquelas saudades gostosas... Daquele tempo lá no passado quando o tempo não passava e a gente tinha a vida toda pra fazer tudo, ser tudo e brincar de tudo. E nessa nostalgia aquecida por uma chuvinha de começo de inverno foi que me lembrei de uma coisinha que há muito tempo não lia... Um trechinho curioso de O Apanhador no Campo de Centeio, do J. D. Salinger.

Queria dizer que já li o livro todo. Não. Está ali na meta de leitura pra algum dia quando os relatórios de estágio me derem uma trégua. Mas me recordo perfeitamente daquele textinho sobre os chatos que li quando estava em plena quarta série, escondidinho ali nas páginas do meu livro de Português. Parece que foi ontem, mas já se passaram muitos anos.

O que é curioso é que desde aquela época eu tinha me apaixonado pelo texto. Não pela história em si, quer dizer, bem, sim, fiquei curiosa a respeito do personagem, mas o que me cativou mesmo foi a escrita. Vai ver J. D. Salinger é superestimado, seu poder de comunicação tem um certo charme, mas eu adorei tanto ler aquele texto uma e outra vez que lembro de ficar pensando que um dia eu escreveria algo parecido com aquilo. Parece bobagem. Talvez seja. Que criança de quarta série pode sonhar com coisas tão de adulto assim, não é?

Mas... Só porque estou revivendo essa memória, decidi me equipar de uma boa caneca de chocolate quente (cremosinho e tudo!) e catei de novo o texto pra ler. Não sou egoísta (nem chata!), então tá aqui pra vocês também.


Os chatos, de repente, tem um lado não chato 

O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger, 1945

Muita gente já tinha chegado de férias e acho que havia mais ou menos um milhão de pequenas por ali, sentadas ou em pé, esperando os namorados. Garotas de pernas cruzadas, garotas de pernas descruzadas, garotas com pernas fabulosas, garotas com pernas pavorosas, garotas que pareciam boazinhas, garotas que, se a gente fosse conhecer, ia ver que eram umas safadas. Era realmente uma paisagem interessante.
De certo modo, também era meio deprimente, porque a gente ficava pensando no que ia acontecer com todas elas. Quer dizer, depois que terminassem o ginásio e a faculdade. A maioria ia provavelmente casar com uns bobalhões.
Esses sujeitos que vivem dizendo quantos quilômetros fazem com um litro de gasolina. Sujeitos que ficam doentes de raiva, igualzinho a umas crianças, se perdem no golfe ou até mesmo num jogo besta como pingue­pongue. Sujeitos que são um bocado perversos. Sujeitos chatos para burro.
Mas é preciso ter cuidado com isso, com essa mania de chamar certos caras de chatos. Não entendo bem os chatos. Juro que não. No Elkton Hills, durante uns dois meses fui companheiro de quarto dum garoto, o Harris Macklin. Ele era muito inteligente e tudo, mas era um dos maiores chatos que já encontrei na minha vida.
Tinha uma dessas vozes de taquara rachada e praticamente não parava nunca de falar. Não havia jeito de se calar, e o pior de tudo é que, em primeiro lugar, nunca dizia uma única coisa que a gente tivesse interesse de ouvir.
Mas tinha uma coisa que ele fazia como ninguém: o filho da puta assoviava como gente grande. Ele ficava fazendo a cama ou pendurando seus trecos no armário ­ vivia pendurando alguma coisa no armário, me deixava maluco ­ e, quando não estava tagarelando com aquela voz de taquara rachada, ficava assoviando o tempo todo. Ele era capaz de assoviar até troços clássicos, mas quase sempre assoviada músicas de jazz. (...)
Claro que eu nunca disse a ele que o achava um assoviador fabuloso. Ninguém vai chegar junto de um cara e dizer: "Você é um assoviador fabuloso". Mas morei com ele uns dois meses, apesar de toda a chatura, só porque ele assoviava bem para burro.
Por isso, tenho minhas dúvidas quanto aos chatos. Talvez a gente não deva sentir tanta pena de ver uma garota legal se casar com um deles. A maioria não faz mal a ninguém e talvez, sem que a gente saiba, sejam todos uns assoviadores fabulosos ou coisa parecida. Nunca se sabe... 


Foto: Reprodução
Texto: Barrichelo

2 comentários:

  1. Que lindo o texto Janne, amei. Sempre me encanta sua escrita, sua sensibilidade, me identifiquei muito com seu post. Obrigada

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    Respostas
    1. Obrigada, Rita! Toda a sensibilidade e doçura desse texto são créditos do J. D. Salinger. Obrigada por visitar o blog, mesmo que a dona o abandone de vez em quando =D

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