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16 fevereiro 2017

A Louca da Taquicardia


Uma vez quando eu era pequena perguntei a minha mãe o que era essa tal taquicardia que o povo falava e ela me respondeu que era quando o coração batia muito rápido e a pessoa podia passar mal e ir para o hospital. Assim, todas as vezes que eu fazia aula de Educação Física na escola e sentia meu coração saltitando desesperado no pescoço pensava que estava tendo taquicardia e que ia parar no hospital. Isso foi bem semelhante a quando eu perguntei a minha mãe outra vez o que era ficar ansioso e ela disse que era quando a gente esperava muito para algo acontecer, e eu, mais uma vez, ficava feito uma tonta na frente do fogão esperando o bolo de cenoura ficar pronto e dizia que estava muito ansiosa.

Talvez eu fosse meio ingênua na época.

Mas ninguém me ensinou que taquicardia faz você falar quase trinta palavras em menos de 30 segundos e ficar argumentando consigo mesma qual a necessidade de falar rápido assim se todos estão devidamente atentos a sua conversa. E depois faz você pensar que falar rápido não tem nada a ver com taquicardia ou ansiedade, é só que você simplesmente acha que precisa se livrar logo dessa obrigação árdua de ter que falar para outras pessoas, assim, você pode economizar tempo falando o máximo em menos tempo possível. E isso realmente, realmente, não faz o menor sentido.

Claro que acontece também quando você vai digitar qualquer estúpida coisa. Por exemplo, para escrever essa simples frase, digitei quase todas as teclas e errei quase todas as palavras no processo, tendo que infelizmente, parar algumas vezes para corrigir tudo. E vai que ficou outra perdida por aí que nem vi...

O que quero dizer é que taquicardia e ansiedade, na verdade, não tem nada a ver com bolo de cenoura, aulas de Educação Física ou falar rápido demais. Eu nem sei realmente se elas tem a ver com alguma coisa, mas a constância delas no meu dia-a-dia tem tudo a ver com o fato de eu escrever. Sim, bem... Escrever alguma coisa. Não no sentido Literatura Nacional de Elite, ou mesmo, Prêmio Jabuti, mas... Sabe, escrever? Usar lápis e papel - que no mundo de hoje se resume a dedos e teclado e uma tela aberta do Word? Então... A taquicardia é consequência de uma rotina bem tumultuada, tipo: acordar-banho-café-sair correndo-pegar ônibus-perder ônibus-bater ponto-ter um dia terrível-bater ponto-sair correndo-pegar ônibus-perder a hora-chegar atrasada-assistir aulas-querer dormir-voltar pra casa-fazer a janta-lavar a louça-tentar dormir-não conseguir-começar de novo. A ansiedade é o que está exatamente no antes e no depois. E assim a vida prossegue ao tropeços.


Quando eu era pequena eu achava que queria ser médica e cuidar de crianças. Hoje eu cuido de crianças e Deus me livre ser médica, porque detesto sangue. Quando eu era pequena eu queria trabalhar muito e passar o dia fora de casa. Hoje eu trabalho muito, passo o dia fora de casa e só penso em desistir de tudo. E é aí que mais uma vez essa aceleração chega como se eu tivesse praticado muito na aula de Educação Física e meu coração fica batendo até dentro dos meus ouvidos como tambor de escola de samba. Escola de samba tem tambor?

Não sei nem mesmo quando começou essa coisa toda. Tem gente que diz que é loucura, tem gente que diz que é frescura, mas o porém é que não tenho muito afago por gente. A gente não me entende, não me ajuda, não me dá uma luz. E nem faz parar o turu-turu-turo aqui dentro. Se você tivesse qualquer dia ficado encolhida num canto de parede sem conseguir respirar, pensar, andar, sentir, viver, só sofrer-sofrer-sofrer, você entenderia. Mas você não entende, você é gente.

Às vezes, eu penso que a louca da taquicardia é um encosto. E ele me possui uma vez ao dia e me faz querer coisas absurdas. Já fui em sessão do descarrego, mas não funcionou; já fui em psicólogo, mas não deu em nada; já apelei até pro Constantine Caçador de Demônios, mas... Agora só me falta pedir ajuda pros Irmãos Winchester. É meio ridículo pensar que cheguei a esse ponto quando tudo que queria, na verdade, era me empanturrar de bolo de cenoura e ficar em casa vendo Netflix. No fim das contas, acho que a taquicardia e a ansiedade tem a ver com ser adulta.

Ser adulta é chato. É um tremendo pé no saco. Você acha que pode tudo, mas na verdade, não pode nada, porque tudo é ilegal, imoral ou engorda. E você tem que continuar sendo adulta porque é inaceitável ligar para sua mãe e dizer que quer colo e não quer dormir sozinha. E assim a vida segue aos tropeços. Tropeços, atropelos, acidentes de carro, colisões e explosões. Você não entende porque tá acelerada, porque fala rápido demais, porque tem que ainda fazer Educação Física e porque diabos não pode ter bolo de cenoura às 2h da madrugada. A vida segue na taquicardia, na ansiedade, na ansiedade da ansiedade e na falta de idade pra ser adulta e no exagero de idade pra ser criança e é um ciclo sem fim e você cansa, mas continua.

Porque a taquicardia é isso: é quando se está cansada, mas ainda continua. É quando se está ansioso, mas ainda continua. Quando se tropeça e atropela. mas ainda continua. É o coração gritando que a função dele é bater e que não pode parar.


PS: Se ainda persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado.


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